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Para a disciplina de Literatura para a infância tivemos que elaborar uma história infantil, o que, para mim até foi do meu agrado uma vez que adoro escrever e adoro crianças, como tal, saiu a história que passo a apresentar. Dedico-a à minha avó – Celeste, à minha mãe -Arminda e ao meu afilhado – Rafael, cujos nomes quis manter na história, assim como aos meus amigos, visto que a amizade é uma das temáticas da mesma. Vários aspectos além destes identifico comigo na história que elaborei.

 

Uma Avó Celestial

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A avozinha Celeste, assim chamada na aldeia de Vandoma, era a avó que todos queríamos ter. Por baixo daquele cabelo branquinho como neve e daquela voz ténue escondia uma enorme sabedoria. Com a mãozinha a tremelicar lá reunia tantas crianças quantas aparecessem no largo da aldeia que depressa eram motivadas por ela. De Inverno à volta da lareira e de Verão naquela pedrinha do quinteiro com os raios de sol a obrigar a semi-serrar os olhos. Nem imaginam a importância que este local veio a ter. Fosse qual fosse a estação do ano presenteava as suas pequenas visitas com aquele leite-creme de fazer crescer água na boca que só ela sabia fazer.

         Nas tardes da avozinha Celeste não havia lugar para aborrecimentos por parte das crianças, tal era a sua capacidade para despertar a atenção e interesse, que nenhuma ali estava contrariada. E o agrado era bem evidente naqueles olhos bem arregalados e atentos ao mais pequeno pormenor da história contada. Sim, história! E eram muitas que sabia a avozinha Celeste e raramente as repetia. Do mais rebelde ao mais pacato ela sabia o jeito de lidar e todos se rendiam aos encantos dos enredos. Desenganem-se se pensam que eram só histórias mágicas de fadas e príncipes. Não! Ela contava de tudo. A história era muitas vezes motivada pela briga dos meninos acabada de ser observada por ela ou por qualquer tema actual que ela achasse conveniente explicar. E explicava, ainda que indirectamente. Pois qualquer história contada por ela era uma grande lição. Ela parecia conseguir ver o que estava para além do visível. Ela fazia e via naquelas crianças o futuro ao virar de cada página do seu intimo livro de sabedoria.

Como se de um rejuvenescer se tratasse a avozinha celeste assistia com muita frequência às longas horas de brincadeiras daqueles meninos. Depois surpreendia-as com a receita da sua história com cheirinho a leite-creme. Ela surpreendia mas também era surpreendida com a esperteza daquelas criaturas, assim chamadas por ela.

         Lembro como se fosse hoje cada história contada, mas particularmente uma. Numa bela tarde de Verão após uma briga entre dois amigos pela indignação de um face ao pontapear do outro a um cão que por ali passava, ela contou a seguinte história:

Certo dia, numa bela aldeia de Paredes um menino de nome Rafael regressava de mais um dia de aulas, quando algo de muito especial lhe aconteceu.

Todos os dias a ansiedade era muita para chegar a casa e dar um longo beijo na sua mãe. Logo a seguir atirava a sacola para a mesa e fazia grandes caminhadas na sua bicicleta. Mas, neste dia tudo foi diferente, pois pelo caminho encontrou algo que o fez adiar todos os malabarismos que faz com a bicicleta, desde levantar a roda, rodopiar a derrapar. Ouviu ele “Miau Miau”, quando ao canto da escada viu um lindo gatinho. Ao início receou tocar-lhe, mas face ao seu ar tímido e triste não resistiu a fazer-lhe umas festinhas.

Ao chegar a casa a mãe ficou muito admirada por ele trazer o gato ao colo, mas mais ainda quando lhe diz – Mãe olha o que encontrei, agora é nosso. Sandra, a mãe do menino, mesmo não tendo resposta do filho de onde trazia o gato, o certo é que o animal não podia ficar ao relento e era de facto muito querido.

Deste modo, serviram-lhe uma refeição que saciou a sua grande fome e deram-lhe um banho que o deixou muito cheiroso. O Rafael estava tão entusiasmado que foi difícil à mãe o convencer a abandonar o cantinho da cozinha onde estava o kiko, nome dado de imediato pelo menino. Mas, com algum esforço lá foi o menino para o seu quarto dormir um sono sossegado.

         No dia seguinte, acordou ainda mais cedo do que o habitual. Quando a mãe se dirigiu àcozinha para os seus afazeres, já o Rafael estava ajoelhado junto do seu mais novo amigo.

Seguidamente o Rafael foi estrada fora aos saltos para a escola, mal podia esperar para contar aos seus amigos a novidade.

A mãe, foi, como habitualmente ao mercado e hoje teria de colocar mais algumas coisas no carrinho das compras, alimentos e produtos de higiene para o Kiko. Pronta para fazer o pagamento, na caixa, ouvia a sua vizinha do fundo da rua dizer bem alto que lhe tinha fugido o gato do seu Leonardo.

Sandra, ficou em silêncio por instantes, incrédula no que acabara de ouvir. Tudo o que lhe veio de imediato ao pensamento foi em como dar a noticia ao Rafael. Tinha-lhe ganho tanto afecto, não ia ser tarefa fácil tirar-lho a esta altura.

De repente lembrou-se do sofrimento do filho da Dona Arminda por ter perdido o seu animal de estimação. Leonardo foi criado só pela mãe, pois o pai faleceu num acidente era ele ainda muito novo. Era uma criança muito difícil de se tratar, agora com seis anos, poucas mais palavras dizia que há três anos atrás quando o pai partiu.

Desde essa altura, passou a ser uma criança muito triste, além da mãe o seu fiel amigo era o gato, por ele chamado de Tareco. Na escola além da dificuldade de aprendizagem não conseguia fazer amigos.

Ao pensar em tudo isto a mãe de Rafael depressa se apercebeu de que cometeu um grande erro por não ter contado a verdade sobre o gato. Mas, não era tarde!

Mais tarde, percorreu a rua e ouvia já pela janela aberta as palavras de Dona Arminda – Leonardo tens que comer para teres força para procurar o Tareco, nós vamos encontrá-lo.

Após ter tocado à campainha Sandra nem sabia como começar a falar, sentiu-se deveras muito arrependida e rapidamente ganhou coragem para contar onde estava o gato. Após uma longa conversa as duas mães entenderam-se muito bem e o pedido de desculpas foi bem aceite. Tal foi a alegria do Leonardo quando soube que não tinha perdido o seu estimado gatinho, ele pulava de alegria e tentava dizer algumas palavras que dificilmente se entendiam – ú tá o taeco- e que a mãe que já o entendia com alguma facilidade indicou a Sandra que ele perguntava onde estava o tareco.  Dona Arminda não escondia também a sua alegria em ver a manifestação do filho.

Sandra de caminho para casa tentava encontrar as palavras certas para contar ao Rafael no regresso da escola. Sentia já a tristeza do filho mas reconheceu que mais carente estava o Leonardo. Retratava mentalmente o momento que acabara de ter. Era contado na aldeia que o marido de D. Arminda morreu num acidente, contudo, Sandra nunca soubera os pormenores, como esta lhe acabara de contar.

Num final de tarde regressavam de casa da avó, onde iam sempre no final de semana. Nem imaginam o amor que aquela avó lhes tinha! No regresso cantavam alto e riam de alegria. O pai várias vezes olhava para trás de tanta que era a satisfação. Sandra encontrava-se voltada para trás, onde estava Leonardo sentado na sua cadeirinha com um grande sorriso esboçado e sempre a tentar alcançar a caixa pousada no assento com um pequeno gatinho dado pela sua avó. Quando de repente um enorme barulho se ouve, causado pelo embate do carro numa àrvore. Seguiram-se alguns dias no hospital e tempos muito difíceis. Disse D. Arminda – sabes Sandra, desde aquele dia tudo foi diferente, vivo por ele e para ele. O sorriso de Leonardo nunca mais foi o mesmo, as poucas palavras que aprendeu nunca mais deram lugar a outras, falar é algo que não consegue, ninguém o entende, o seu grande companheiro tem sido o gato.

Sentados os dois na mesa da cozinha, Rafael desatou a chorar quando a mãe lhe disse que tinha encontrado o dono do Kiko e por momentos manteve-se amuado e fechado no seu quarto.

Entretanto, após alguma insistência da mãe, o Rafael acompanhou-a a casa de Leonardo para devolver o gatinho. Ouviu-se um forte gemido do gato, quando Leonardo o apertou com muita força de tão grandes que eram as saudades e a alegria do reencontro. Leonardo com tanto entusiasmo de novo tentava dizer algumas palavras – má ó gato taeco.

Assim regressaram a casa e a tristeza do Rafael parecia ter diminuído talvez por ver de perto a emoção de Leonardo e ter visto o quanto era importante o gato para ele.

No dia seguinte Rafael procurou o Leonardo na escola, ainda que com algum receio, mas Leonardo lá ia respondendo à sua maneira às questões do Rafael e aos convites para algumas brincadeiras. Dia após dia fazia isto, procurava o Leonardo, quer na escola, quer em casa de Leonardo, podendo deste modo também continuar a ver o gatinho. A par desta amizade dos meninos crescia também uma grande afinidade entre as mães na partilha dos seus problemas e das suas alegrias.

Foi numa dessas tardes ao ar livre que o pior podia ter acontecido. Enquanto as mães estavam calmamente sentadas na manta que carregava o saboroso lanche, os dois meninos jogavam à bola tendo a participação incansável também do fiel gatinho. Junto ao belo parque de merendas onde estavam, existia a uns metros uma estrada. A dada altura tareco dá uma corrida para o outro lado da estrada onde havia outro verde campo, perceberam depois que terá avistado um outro gato que por ali passava. Rafael na pressa de o encontrar, salta o pequeno muro em direcção à estrada. Tal era a sua aflição que não olhou para a esquerda e a direita como lhe ensinara a sua mãe para ver se vinham carros. Nessa atura, Leonardo, a ver o perigo a aproximar-se grita bem alto – Rafael cuidado olha o carro. Nesse instante, Rafael entre o grito do amigo e o som ensurdecedor do derrapar do carro que se começa a ouvir, recua um passo. Foi o suficiente para que o carro não o levasse à frente. Segue-se um abraço tão mas tão apertado entre aqueles dois amigos que só com a aproximação das mães é que se largam.

Foi realmente um grande sufoco também para as mães que com o grito tomaram consciência do que estava a acontecer ou melhor, do que podia ter acontecido. Por momentos o poder daquele grito foi esquecido, pois era urgente ver o estado de Rafael e pedir desculpa ao condutor do automóvel.

Apesar do susto era muita a satisfação, Leonardo acabara de salvar a vida a Rafael e aquele grito começa a manifestar a cura para o silêncio. As mães, até sem saber como reagir, beijavam docemente os seus filhos. Por um lado aliviadas por não ter acontecido nada de mal a Rafael, por outro, pela evolução na fala de Leonardo. Como é que o destino colocou um acidente motivo para o surgimento e fim do silêncio.

Seguidamente encontraram o Tareco do outro lado. O outro gatinho, apesar de com ar de desconfiado inicialmente, respondeu com a sua presença às festinhas dos meninos. Novamente aquele ar tímido que havia despertado a atenção de Rafael voltou a suceder e cativou a atenção de todos os presentes. Deram-lhe alguns alimentos e como já era de esperar a insistência dos meninos levou a que as mães aceitassem leva-lo para casa. Chegado a casa foi com muita euforia que Rafael deu banho ao seu novo animal de estimação e aquele cantinho da cozinha foi outra vez ocupado. Desta vez o dono não apareceu, aliás talvez não tivesse dono, pelo pouco trato que apresentava. Conseguem certamente adivinhar o nome que lhe deu!? Sim é esse que estão a pensar, Kiko.

No final de algumas semanas o Leonardo já conseguia dizer mais do que umas palavras soltas, começava a construir frases e a estabelecer diálogo. Com esta evolução de Leonardo percebeu-se ao fim de uns meses que o problema de Leonardo que os médicos não conseguiam descobrir ao certo estava a ser resolvido. A sua dificuldade em falar estava ligada ao desaparecimento súbito do seu pai que ele tanto gostava, mas o seu amigo com igual carinho tentou desperta-lo para a vida e ensinar-lhe muitas coisas. Viveram juntos muitas alegrias, fizeram muitas asneiras juntos, sobretudo nas férias grandes que se seguiram. Apesar das asneiras até eram meninos bem comportados, diziam uma para a outra as suas mães orgulhosas e unidas pela dor da ausência dos maridos, pois o pai do Rafael era trabalhador emigrante e passava muito tempo fora de casa.

No final das contas o herói é o gatinho que conseguiu unir e fazer dois meninos muito felizes e unidos para sempre.

Este é o fim da história da avozinha, mas será que eles viveram felizes para sempre, queriam vocês que isso acontecesse?

Hoje sou uma mulher feita, como se diz na minha aldeia, já não participo nessas brincadeiras de rua. Limito-me a ver, mas não são como antigamente, são bem menos, a televisão e os jogos vieram substituir parte das brincadeiras ao ar livre.

A avozinha Celeste já não é viva para contar histórias. Mas ficará na lembrança de todos quantos viverem naquele tempo. Mesmo os que não viveram certamente poderão ouvir falar de algumas destas histórias e desta querida avó pela boca de algumas daquelas crianças, agora homens e mulheres como eu. Não com o jeitinho que só ela tinha, mas de tão grande que é o bem que se diz, estou certa de que ficará o desejo de tê-la conhecido.

Apesar de algumas histórias serem fruto da sua imaginação, esta era real e aquele menino de nome Leonardo, era seu neto. Admirados? Sim é verdade! Apesar do sofrimento da morte do seu filho e o consequente silêncio do seu neto, ela reservou para os pequenos ouvintes daquela história, como eu, a grande lição daquela vivência. Elevou muitos sentimentos e valores.

Não pensem que termino por aqui, não! Apesar do resto da história não ter sido vivenciado pela avósinha Celeste que a idade não lhe perdoou, dou-lhe continuidade com base no que assisti naquele tempo. Fazendo pouca diferença de idade dos protagonistas da história da avó, a imaturidade só me deixou perceber mais tarde contado por outros, por isso não deixarei a metade e vou saciar a vossa curiosidade.

Apesar de uma forte amizade que não tinha limites, e que vão perceber porquê, o certo é que o destino lhes pregou uma partida. Por razões que se desconheciam, Rafael e sua mãe desapareceram. Lembram -se do que falei da pedrinha do quinteiro, pois bem, saberão agora a importância dela. Esse local sempre fora, após a morte da sua avó e posteriormente do desaparecimento de Rafael, o local de refúgio para Leonardo. Num desses dias, desesperado por não saber do amigo sentou-se nela a chorar, mal sabia o que lhe trariam aquelas lágrimas! Dizia ele – Avozinha, avozinha! Quando acaba de pronunciar aquelas palavras entre num mundo imaginário onde aparece a sua avó, dando-lhe conselhos em formato de história como outrora. Um dos conselhos era para não desesperar que em breve teria notícias de Rafael e num prazo mais longo, numa situação muito especial se encontrariam. O certo é que dias depois, sua mãe recebe a seguinte carta:

 Querida amiga, só agora pude dar noticias. Será que algum dia poderei desabafar todo este sofrimento contigo, como pode aquele que tanto amei me ter tirado a toda a força a mim e ao Rafael do vosso meio. Estamos agora melhor, espero continuar a dar noticias. Um beijo com muita saudade meu e do Rafael, para ti e para o Leonardo.

Tempos difíceis se seguiram, mas o passar do tempo ajudou a diminuir a dor. Aquela pedrinha passou a ser ainda mais especial, os meninos que depois foram crescendo, continuavam a sentar-se à sua volta. Apenas até à adolescência, a avozinha permitia-lhes entrar naquele mundo imaginário ao serem ditas as palavras mágicas. A avozinha continuava ali presente, não, não lhes lia o futuro. Mas ela sabia-o e ao virar cada página do seu íntimo livro de sabedoria continuava a ver neles o futuro, continuava a usar as suas histórias como sempre fizera para conduzir aqueles meninos pelo melhor caminho.

         Actualmente, o espaço envolvente aquele lugar que servia de palco para as deliciosas histórias da avozinha deu lugar a uma escola, com uma grande particularidade, o dono desta escola chama-se Leonardo. Este não senta no quinteiro como a sua avó fizera em tempo, mas, agora homem feito, da herança que a avó lhe deixou deu continuidade ao seu sonho de ver e fazer sorrir muitas crianças a par da instrução com carinho a que todos têm direito.

Fez daquele canto uma grande escola, onde leccionava, tendo sido aproveitada a pequena quinta para continuar a espantar e entusiasmar as crianças com vários animais e um excelente espaço verde. A grandiosidade daquele espaço não é só em tamanho, mas no excelente serviço prestado a todas as crianças, muitas delas apresentando características especiais. Contudo, apesar do trato especial que algumas requerem, são tratadas na sua essência de igual forma. Todas ali encontram a disciplina é certo, no entanto, a atenção e o carinho são uma constante daqueles profissionais de ensino, criteriosamente seleccionados.

         É inexplicável o sentimento quando entramos naquela escola e vemos o rosto daquela estátua parecendo tão real. Aquele sorriso parece transmitir a satisfação daquela avó face ao futuro amavelmente construído por aquele neto tão especial.

         Não serei sua repercussora no acto de contar histórias, mas também aquela pedrinha recorri e falarei dela a todos quantos estiverem dispostos a me ouvir. Quem dera os meus filhos e netos tenham uma avozinha Celeste para lhes contar histórias. Contudo, apesar de não terem aquela avozinha tão real como tive, continuarão a ter possibilidade de entrar naquele mundo mágico que se reflecte no real e a ser conhecedores dela como todos vocês que me estão a “escutar” neste momento.

Quantas saudades avozinha Celeste! Serás sempre no nosso coração o nosso passado, presente e futuro!

Perguntam vocês, e a amizade dos meninos, o que foi feito de Rafael? Durante este percurso de Leonardo, como profetizara sua avó numa das suas viagens a um país daqueles bem complicados, encontrou Rafael que lhe contara a malvadez de seu pai. Mas, tempos depois regressou à terra natal e agora sim, podemos dizer que afinal a avozinha Celeste tinha razão no final da história – viveram felizes e unidos para sempre.

 

No primeiro semestre tive uma unidade curricular – Ajudas Técnicas e Técnologias de Apoio, que inicialmente me surpreendeu pela negativa, no entanto, o seu decorrer veio alterar a minha opinião, colmatando com um enorme gosto pela temática abordada.

Inicialmente saia das aulas sensibilizada, porque os temas principais eram a deficiência, incapacidade, ajudas técnicas…Não quer dizer que me tenha deixado de sensibilizar, mas, inicialmente era diferente, achava muito estranho, talvez também aliado ao facto de nunca ter estado muito próxima de uma realidade destas. Associava sempre a sentimentos de tristeza, desconforto, inutilidade, angústia. Efectivamente, para quem sofre de algum problema em que veja limitadas os suas capacidades, seja a que nivel for, alguns destes sentimentos são inevitáveis. Contudo, aprendi que há uma panoplia de ajudas técnicas e humanas que podem atenuar muitos desses sentimentos. Convinhamos que nem sempre o contexto é igual e o factor económico, infelizmente, não deixa uniformizar o acesso às melhores condições, mas esse é outro assunto, quem sabe a ser explorado futuramente neste blog.

Com efeito, no decorrer das sessões fui ficando muito surpresa com a minha tamanha ignorância face às ajudas técnicas e técnologias de apoio existentes na nossa actualidade. Além disso, a troca de testemunhos, o exemplo da Inês da nossa faculdade e o contacto com um maior número de pessoas nessa situação, fizeram-me encarar esta problemática de outra forma.

O trabalho solicitado, permitiu-me também a aproximação a um exemplo real, do qual retirei um enorme proveito da debilidade e humildade do caso que me serviu de testemunha:

“ Eu era alegre…já vão muitos anos… gostava de correr e saltar por todo o lado…deixei a escola pa ir ganhar uns contos p´ájudar nas contas cá de casa…mas o que eu sempre quis ser foi carpinteiro…mas prontos fui pa trolha …era o que dava…e eu sonhava sabe…e queria comprar um carro pa ir dar umas voltas…mas olhe…desde que aquilo aconteceu…agora ando qui nesta cadeira que até era dali da mãe do visinho que morreu…a outra que eu tinha já num dava mais… sempre a contar com os outros…o Sr Arnaldo sabe…aquele que é da junta até me fez ali o quarto de banho tentaram levar-me lá paquelas casas que olham por nós…mas…nunca mais sai daqui…só vou lá diante ao médico…a minha mãe já num me pode emporrar no paralelo…num tenho nada que fazer… ainda falei ali ao Mané carpinteiro… trabalhava …aqui as mãos tão boas…mas eles…ó sabe…eles pronto…olham pela vida deles…”

 Foi muito gratificante realizar este trabalho, li imenso a respeito, pesquisei, fui ao local, enfim, tive muito empenho e valeu a pena, não só pela nota, mas pelo conhecimento que adquiri que me permitiu ter outra visão e enriquecer interiormente.

Sei que na prática, no trabalho com pessoas com este tipo de problemas, terei que ultrapassar aquele sentimento de pena e medo que sinto, tentar distanciar a parte emocional ( e ao mesmo tempo nunca a deixando de parte) e capacitar essas pessoas, sugerindo-lhes soluções. Contudo,  mesmo a saber dessa barreira que tenho que utrapassar e consciente da dimensão deste problema e da capacidade que é fulcral ter na intervenção social a este nível, confesso que gostava de experimentar trabalhar neste âmbito. Certa de que voltarei a falar nesta temática e tendo intenções até de descrever a situação em que a pessoa que me serviu de testemunha vive  e as possiveis formas de intervenção que conclui com a ajuda desta disciplina ser necessárias. Por enquanto, termino este meu comentário com a certeza de que “a época em que as pessoas com deficiência não tinham lugar na sociedade já passou” (Se Houvera quem me ensinara, 2003:7) e é necessário cada vez mais afirmar que “o que caracteriza uma pessoa com deficiência não é apenas a falta de visão, audição, de um braço ou de uma perna ou de uma estrutura mental diferente, nem somente falhas no andar ou no ficar em pé que se traduzem as dificuldades. A pessoa com deficiência também é aquela que se encontra desarmada face a situações da vida cotidiana. Assim, qualquer significado associado à palavra “deficiência” pode ser visto como um produto de interacção entre inúmeras variáveis sociais e espaciais” (Duarte e Cohen, 2004)

A escolha do meu blog deve-se ao facto de pretender aproveitar para fazer dele uma forma de apresentação do meu percurso académico, para já, e quem sabe continuar, posteriormente, a usá-lo. Dei-lhe o nome de “O meu mundinho” porque faço intenções de nele colocar trabalhos pessoais, testemunhos e mesmo reflexões acerca de vários temas que possam envolver a minha formação ou outros campos em que esta se repercuta. Além disso, denominei-o de o meu mundinho e não o meu mundo tentando dar-lhe o sentido de que será algo a tratar e utilizar frequentemente, esperando tirar satisfação. Entendendo as palavras do professor e fazendo delas as minhas, não querendo cair no exagero, é algo que requer muito do nosso prezar e dedicação.

Neste sentido, tratarei de colocar os trabalhos que fui fazendo ao longo deste ano nas várias unidades curriculares, como forma de aproveitar esse espaço para os expor e deste modo, constituir uma espécie de livro que poderei consultar e dar a consultar sempre que necessário. Além disto, este blog visa servir-me como uma espécie de confidente  escolar, no sentido de que darei conta da minha evolução ao longo do tempo. Por um lado, manifestando os pensamentos e ensinamentos que possam advir da minha vivência e aprendizagem. Por outro lado, à medida que novos trabalhos ou opiniões vão sendo expostos, mais fácil se torna estabelecer comparações com os anteriores e deste modo, verificar a minha evolução ou regressão.

Ao longo desta exposição colocarei os vários temas, as várias teorias com as quais tenho enriquecido o meu conhecimento e alargado os meus horizontes. O blog reflectirá essa aprendizageem e a construção de um percurso que, não podendo ser perfeito dadas as dificuldades, que seja pelo menos minimamente proveitoso, contribuindo na minha constituição enquanto pessoa e na minha formação como Educadora Social.

Muito se especula no que concerne à area de Educação Social, há quem conheça e aconselhe, outros não e outros ainda até desconhecem. Tinha, efectivamente, algumas ideias formadas do que era este curso, contudo, constato, agora, que muito pouco sabia e sei. Apesar de hoje já ser mais capaz de definir o trabalho de um Educador Social, sei que ainda tenho um longo caminho de aprendizagem e aperfeiçoamento pela frente. É precisamente esta descoberta que também quero apresentar no blog, na tentativa de ir definindo a profissão a que me propus seguir, as suas vertentes, os seus âmbitos de intevençaõ, enfim, se não tudo, bastante do que urge saber para ser uma boa profissional.

Por conseguinte, farei menção de testemunhos, assim como noticias que se relacionem com o curso e as várias temáticas que aborda e que permite trabalhar.

Com efeito, escolhi este formato de blog, que será bastantee descritivo, onde abunda o texto. No entanto, não deixando de se fazer acompanhar de imagens, videos e apresentações em power point, sendo que, alguns dos trabalhos já feitos apresentam estas caracteristicas. Seguirei os parâmetros que estão na origem da sua criação, cuja unidade curricular privilegiava o uso de vários programas que suportam os formatos a cima referidos. Seguirei a instrução, considerando que se torna mais apelativo com imagem e cor, não esquecendo nunca de lhe dar o meu toque pessoal.

Em suma, este blog, apesar de feito a fim de cumprir o programa de uma unidade curricular, a meu ver veio na hora certa, não obstante o risco de info-exclusão que nos obriga a manter cada vez mais actualizados quanto às novas tecnologias de informação, outras razões me fazem dar-lhe importância. Afinal, neste amontoado de papéis, nesta azáfama de tarefas, nesta escassez de tempo, quem não precisa de partilhar palavras, sentimentos, testemunhos…

A vida é feita de momentos, uns bons, outros menos bons. Ambos têm a sua razão de existir e são fundamentais para o nosso crescimento enquanto pessoa. Os bons dão-nos a alegria que nos alimenta a esperança e nos fazem viver de forma satisfeita. Os menos bons, ajudam-nos a valorizar os momentos bons, a ser resistentes e persistentes.

É obvio que tudo isto é muito relativo, varía de acordo com a pessoa e a própria circustância, pois, um bom momento hoje poderá não o ser amanha.

Concretizando, os momentos menos bons que a vida me colocou fomentaram a minha busca por momentos bons e nessa luta, um dia vencedora, no outro derrotada, fui aprendendo a ultrapassar os entraves. Regredi, avancei, estagnei, mas em todas as circunstâncias fiz (e fazemos) opções.

o acto de elaborar este blog, poderá ser entendido como o resultado de uma dessas opções. Se o estou a fazer é porque entrei para a faculdade e para este curso. Eis a prova de que tudo tem o seu lado positivo e negativo. É com muito sacrificio que cá estou, abdico de muito para isso,mas por outro lado, corri atrás de um sonho que me realiza e que quero tornar real.

Farei deste blog o meu diário escolar, onde colocarei os trabalhos, os testemunhos, até quem sabe os desabafos deste meu percurso.

Quero ser Educadora, mas o que será isto de ser educadora Social, em que consiste?! Tenho vindo a descobrir e vou certamente colocar aqui as respostas, com as temáticas, teorias, trabalhos…das várias unidades curriculares.

Para já posso referir que me agrada poder intervir no sentido da mudança na nossa sociedade. Terei certamente oportunidade de confidenciar as minhas preferências quanto às áreas com que gostaría de trabalhar.